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DA TABVLA AO TRÁFICO DE TEMPO

Há treze anos Fernanda Chieco elabora sistemas. Circuitos interconectados de relações complexas expressadas em um universo imagético de narrativas fantásticas que priorizam elos físicos e conceituais como formas de comentar o consumo, condutas de controle e hábitos sociais dominantes.

Os territórios que pontuam seus trabalhos desafiam a lógica comum. Espaços ora indefiníveis porém habitados, ora demarcados mas abandonados, acompanham os caminhos que traçam a trajetória da artista – ávida participante de residências artísticas em países tão distintos quanto Coréia do Sul, Estados Unidos, Irlanda e Islândia. Seus trabalhos tangenciam pesquisas, observações e experiências de paisagens e dinâmicas sociais que encontra ao deslocar-se do seu habitat cotidiano para imergir-se em novos contextos, mas coexistem em um sistema peculiar e único de relações que cria, com suas próprias praxes e regras – mapeamentos e etnografias de um Limbo às margens das fronteiras delimitadas da ‘civilização’.

O ponto de partida da exposição Da Tabvla ao tráfico de tempo é a natureza fragmentadora do sistema que rege o mercado de arte. Autora de muitos trabalhos vendidos a coleções (institucionais e particulares) espalhadas pelo mundo, as séries conceitualmente interligadas, hoje existem em uma condição fisicamente fragmentada. Pela primeira vez desenhos, pinturas, objetos e fotografias reúnem obras criadas a partir de 2003 em uma exposição que traça os contornos de sua trajetória e do grande circuito inacabado e estilhaçado de trabalhos do qual fazem parte.

Em Tabvla prima (2003) a conexão entre elementos é explicita e monumental. Neste enorme desenho, corpos interligados por meio de objetos que entram e saem de orifícios, secreções coletadas e expelidas, entranhas que se exteriorizam, escancaram uma desordem nos circuitos corporais comuns, mas se organizam numa cartografia de possíveis relações entre coisas mundanas. O objeto se alia ao desenho em Iscas (2005), uma série na qual regras precisas e peculiares expressas em texto e desenho são dadas para a captura de insetos fantásticos, como a pulga careca da croácia, usando uma esfera com rabo de cabelo.

O corpo como metáfora para sistema permeia toda a obra de Chieco, e o cabelo pontua principalmente a produção de objetos, onde protagoniza uma ressignificação da hierarquia de elementos nesse sistema de valores que nos é íntimo. Em Cabeças encolhidas (2005) o corpo está despedaçado: perna, orelha, braço e arcada dentária estão individualmente cobertos por cabelo humano. Simbólicos, os objetos da série dialogam com uma antiga tradição tribal de encolher as cabeças de inimigos vencidos por meio de uma técnica peculiar que mantinha os cabelos intactos, com a qual a artista se deparou na Inglaterra.

O domínio e o controle encontrados em contextos mais ‘civilizados’ não são menos selvagens nos trabalhos de Chieco. Em desenhos da série Os Catamoscas  (2009), a língua – músculo mais poderoso do corpo, segundo manuscritos médicos – tiraniza os corpos que também conecta. Pela primeira vez, a artista introduziu a aquarela em desenhos com grafite como solução para retratar a força da natureza úmida do músculo indomável. Para além do indivíduo, a tirania social alimentou um ritual da artista durante os jogos da Copa do Mundo na África do Sul. Ao caminhar à deriva pelas ruas de São Paulo abandonadas pelas pessoas da cidade que se uniam em frente às televisões que transmitiam os jogos, registrou vias vazias monitoradas por câmeras. Estes lugares originam desenhos de cenas bárbaras que lembram situações de tortura na série Indagações de uma alma penada (sou vigiado, logo existo) (2010).  As almas que pairam por espaços sociais alimentaram uma pesquisa que levou a artista a eleger a melancia como protagonista de mais de cem desenhos que compõem O processo (2010) da série Destinados à multiplicação, exposta originalmente em um site-specific no Centro Universitário Maria Antônia em São Paulo. A fruta encapsula a metáfora do sangue que é transferida entre corpos e bichos remetendo aos conflitos ocorridos na região que aniquilaram e germinaram as histórias que o circundam.

Os corpos suspensos no espaço e tempo que se tornaram icônicos na obra de Chieco abrem área para os seus resquícios, que são impressos por sociedades em objetos e rituais (sociais), a partir de sua ida à Coréia. Móveis abandonados em uma cidade coreana ocupados por bichos protagonizam a série Trono de Pescador (2011-2012), enquanto frases provindas de conversas tidas durante jantares em que a artista serviu salsichas de carnes exóticas como cascavel, jacaré e tatu, estampam adesivos com as fotos dos alimentos em Sausage Stickers (2012). A presença humana demarcada pela sua ausência se fortalece na série Gone (2014-2015), produzida após residência em Fort Collins, nos Estados Unidos. Sua pesquisa de cidades fantasmas, abandonadas pelos habitantes durante um êxodo, resultaram em enormes aquarelas – técnica que remete à antítese do clima que retrata –, assimétricas para ressaltar a figuração da arquitetura e objetos que anunciam um agrupamento de pessoas que desapareceu, mas deixou impresso a sua passagem. Unfinished artwork as I had my heart broken by this hand surgeon (2015 - 2016) agrupa desenhos feitos em tripas de boi planificadas, de mãos que massageiam lâminas e criam almôndegas com a carne que é expelida pelo próprio corpo – marcas dos vestígios suturados de um relacionamento que não existe mais.

Em sua série mais recente, Trafficking for Time Trade iniciada no fim do ano passado durante o inverno vivido na Islândia, a artista criou uma moeda própria, a Icecoin, que utiliza como objeto de troca por diferentes materiais sobre os quais realiza pinturas (nesta exposição cobertores roubados de aviões). O sistema de troca marginal que permite que os trabalhos existam remete à narrativa do tráfego do tempo que intitula a série. Para Chieco, o tempo é como um órgão que temos mas não vemos e em lugares como a Islândia, onde ele não é marcado de forma comum por fatores exteriores como a presença ou a ausência da luz e precisa ser governado por um sistema próprio, há uma quadrilha que negocia este precioso órgão.

Apesar do uso de técnicas diversas, a artista considera o seu conjunto de obras como um grande e contínuo desenho. O espaço de uma galeria de arte comercial, que representa o mercado de arte que ao mesmo alimenta e desconstrói a coesão de sua produção, parece ser o espaço mais coerente com as dicotomias da lógica fantasticamente peculiar da artista para realizar esta ação de resgate e reconexão do circuito sistêmico que criou entre os seus trabalhos ao longo de treze anos.
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Camila Belchior
São Paulo, Setembro 2016
Camila Belchior é crítica de arte formada na Inglaterra pela Bristol University e obteve seu Mestrado em História da Arte e Teoria pela University College London (UCL) com ênfase em ‘Políticas de representação’. Há 15 anos pesquisa arte contemporânea e atualmente escreve para Art Forum, Ocula.com e colabora com uma coluna mensal à revista Bamboo. Seus textos já foram publicados por diversos títulos, entre eles Frieze, Art Review, Art Nexus, Dardo e Wallpaper*.

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