Traplev

novasbandeiras entre almofadas pedagógicas

esta exposição oferece um momento como experiência a ser vivida, nem mediada muito menos mediatizada. Daí a necessidade de uma zona indeterminada além do que está dado, além do espectador e da obra de arte, além do dizível e visível, de novo: o avesso do imaginário. Marcada pelo excesso e repetição, esta exposição é uma constelação que não busca uma unidade, mas pulsa forte. Estamos diante de uma interrupção em que se espera alimentar algum tipo de pensamento contra-hegemônico ou ao menos promover a extinta capacidade de sonhar acordado, de estar, e não produzir.

       A linguagem é um sistema de signos arbitrários socialmente aceito, é um código. Considerando nossa realidade fragmentada por uma avalanche de imagens desumanizadas, metamorfoseadas num gigante aparelho hipnótico que nos reduz a apenas agentes de consumo, corpos genéricos, é preciso reconhecer o esgotamento da linguagem. Com ela não há nenhuma possibilidade de alteração do status quo. Traplev quebra com este código ao privilegiar sua função estética, atraindo atenção à forma e não ao conteúdo dos signos, relacionando-se de modo ambíguo com o sistema de expectativas e permitindo sentidos que vão além do dizível e representável. Percebe-se aqui uma das premissas desta exposição: a revolução da linguagem é inexorável à revolução social, provavelmente anterior a ela na medida em que abre a frente para nos libertar da colonização dos nossos afetos.

      Sua construção de imagens engloba signos verbais e viscerais, sobrepondo imaginação na realidade. Como vemos na série alfabeto flúor, tempos de, o artista recolheu textos durante o período de consolidação do primeiro passo do golpe parlamentar brasileiro de 2016 e de todas as críticas e reflexões que se sucederam no período de abril de 2016 para cá. Posteriormente, Traplev realizou intervenções nestes textos com letras, números ou sinais gráficos em verde flúor. O uso não discursivo da linguagem torna-se aparelho poético que desvia e desnaturaliza os códigos em que a linguagem é construída. O jogo de signos promovido pelo artista escapa à significação, tornando-se ritmos e melodia, pintura espacial. Ao deslocar os referentes, produz-se uma incerteza interpretativa na qual não cabe uma leitura, mas várias, a serem conduzidas por razões outras que as lógicas.

      O conjunto de trabalhos inéditos apresentados por Traplev lidam com o contexto sócio-político imediato pelo qual o país está passando por. Acompanhando o descontentamento geral da sociedade com o hábito de seus representantes, a efervescência do presente é sua matéria prima. De suposição em suposição, está cada vez mais difícil separar fato de ficção, e Traplev se coloca na retaguarda monitorando a tragédia. Seu objetivo não é romper com a ordem, mas expor sua crise, registrando seus pontos de colapso e também superação.

      Segundo o artista, "estamos vivendo em um Estado de Exceção, em que as premissas éticas e jurídicas foram todas invertidas justamente para poderem ser manipuladas em favor do estado autoritário que se enxerga descaradamente". É o que se conclui quando observamos a tentativa do congresso nacional em tipificar o crime de caixa de dois com o intuito de anistiar a prática conforme realizada até hoje. Ora, não há crime sem lei anterior que o defina...

       Indignado diante desta situação, Traplev insiste em brechas, espaços e tempos abertos. Sua ação é um esforço em revelar o subjacente, arrancar o véu da realidade. E este ato é conduzido de maneira violenta, um grito estridente. E que fique claro, não se trata de representar distopias, mas apenas despedaçar a grã narrativa que nos pacifica e normaliza a crise. Assim, o artista não emana nenhuma intenção clara, e o ponto de significação de suas obras se dá no receptor, ou seja: você, espectador que pode e deve confiar em suas próprias sinapses.

       Cada época contém suas próprias formas de significação. Por excelência, a nossa é a internet no celular, e todos os trabalhos desta exposição surgem desta interface. Utilizando esta caixa de ferramentas, Traplev emprega os circuitos eletrônicos de comunicação para expressar sua resistência e ao mesmo tempo produzir novas subjetividades. O artista opera sobre as imagens-notícias reproduzidas pelos veículos de comunicação buscando quebrar os condicionamentos impostos por ela. Sampleando o conteúdo produzido neste âmbito, interpreta e articula-os desmascarando sua farsa. O vídeo Registro de Processo de Edição (espionagem) mostra os termos em que se dão este processo. É sobre o celular como um fim em si mesmo, uma exploração dos seus potenciais artísticos, suas possibilidades de estetização.

      Os dispositivos nesta exposição buscam interromper o fluxo anestesiante dos sufocantes slogans publicitários e das burocracias do cotidiano. Nosso tempo está saturado e precisamos de um antídoto capaz de reintroduzir a singularidade da experiência. Inclinando sobre a linguagem que produz nossa realidade, Traplev realiza intervenções críticas na cultura que, sem nenhum traço de cinismo, convocam-nos a uma conversa (no sentido radical do termo).Em sua tentativa de agarrar o mundo, as posições tradicionais entre obra de arte e visitante são invertidas. Traplev não faz objetos para serem contemplados. Na verdade, a coisa em si não é o cerne de seu trabalho, a preocupação está numa realidade além dele. Enquanto é evidente que o artista lida com o real em seus trabalhos, não é um real como uma janela para o mundo, uma paisagem de nuvens. É um olhar para o íntimo da experiência de ser, vem de dentro e não de fora. A ideia da tela como espelho do mundo é rompida, oferecendo um espaço imaterial que não se restringe aos limites físicos da obra ou do local que a situa. Vai além da representação de um imaginário apaziguador. Ao fazer isso, revira nosso imaginário e abre uma fresta para o impossível furo atrás do espelho: o avesso do imaginário. Estamos na terceira margem.

      As Almofadas Pedagógicas, mais do que contar histórias passadas de movimentos sociais e históricos identificados como contraculturais,indicam queopresente poderia ser diferente. Assim, sugere que o futuro também possa ser diferente. Importante observação num contexto em que especulamos tanto no futuro em detrimento do presente que vivemos numa espécie de pretérito do futuro. Para além do jogo de palavras, isto aponta que o presente foi esvaziado de qualquer potencial revolucionário. Se o futuro está dado, se já sabemos como ele vai ser e inclusive já moramos nele, então não há nada que possamos fazer hoje que melhore o amanhã. É o fim da imaginação, o golpe derradeiro na utopia.

       Se o afeto político dominante é o imaginário, uma espécie de paisagem do sentimento, também é verdade que podemos agir sobre sua configuração a partir de experiências compartilhadas. Rompendo com a lógica do espetáculo,

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02.04.2017

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sáb / 12 - 17h

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