Gustavo Speridião

Quilômetros

Então ele me disse: nunca ninguém me viu pintar. Nunca, ninguém.
Gustavo Speridião se refere ao ateliê como sua caverna. Faz sentido.

Paredes foram ocupadas com seus escritos, anotações, bilhetes de amigos, colagens e nuvens.
Dezenas de telas ficam sobrepostas penduradas nas paredes, é através do movimento coreográfico de grampear e desgrampear, deslocando-as de lá pra cá, que o espaço se transforma a cada instante.
Em quinze minutos nada estará mais no mesmo lugar.
Mora na imaginação do espectador o modus operandi como trabalha.

Seriam aqueles rabiscos, riscos e escritos, gestos extremamente rápidos, catárticos, violentos? Seriam gestos silenciosos ou carregados de sofrimento? Ora parecem rompantes expressivos, ora parecem que tardaram séculos para surgir. Ora em paz, em sintonia com a poesia do mundo, ora raivosos e caóticos. Ora protesto, ora embriaguez. Ora precisão, ora vacilo, poesia errante.
Telas funcionando como pele. Dos poros brotam angústias, sonhos, devaneios, ilusões e desilusões.Da pele brota sua geometria, seus triângulos e círculos. Tudo feito na proporção do corpo e na relação com a vida, o entorno, a história da arte, os afetos, os caminhos que percorre, as aventuras de uma mesa de bar, as viagens no tempo.
Em 2011, ainda sem saber por quais bifurcações a arte me levaria, visitei seu ateliê pela primeira vez. Citar esse fato não é mero detalhe.
Segundo Deleuze e Guattari somos formados por três tipos de linhas: a dura, a maleável e a de fuga. As duras são as grandes divisões estratificantes da sociedade; rico ou pobre, homem ou mulher. As maleáveis possibilitam certas variações, e a de fuga rompe totalmente com os limites estabelecidos.
Para o entendimento desse processo são cruciais a noção de corpo e desejo. Nessa nova ideia de subjetivação coloca-se o corpo enquanto fonte de sentido, o “eu penso”, dá lugar a uma apreensão de mundo que acontece na relação com o outro.
Foi uma dessas linhas de fuga que atravessou meu corpo naquele primeiro encontro. Verdadeiro rompimento causador de mudanças bruscas, revoluções internas que nos entregam a pura experimentação do nosso existir no mundo, linha ativa, que precisa ser inventada por liberar o desejo da prisão dos estratos, linha que lança o homem ao desconhecido.
O efeito desse atravessamento pode ser passageiro ou ganhar dimensão maior em nossas vidas.
“Quilômetros” é sobre essa dimensão.
É sobre um modo de vida, vidas entrelaçadas pelo fazer artístico. Dobras da existência para todas as direções, primordialmente para dentro.
Perfurando com tinta preta, nanquim, carvão a superfície das telas que por sua vez ocupam as paredes da Sé transparecendo a força da energia pictórica. Enrolando e desenrolando questões, técnicas, existenciais, éticas e estéticas.

Em 2017 celebra-se o centenário da revolução russa, é curioso a sincronia no tempo que essa exposição representa. Militante, Speridião vive a experiência dos confrontos na pele. Participante ativo, seu engajamento ultrapassa as questões formais. É um anti-conformista. Se os artistas são termômetros de seu tempo, Speridião retrata o momento atual das manifestações, da desilusão política. Suas telas em grande formato são obras-bandeiras-manifestos. São gestos de luta, do forte desejo utópico de justiça social, trabalhista e poética.
O que existe em comum entre sua obra e o conceito revolucionário é a tentativa de alcançar um ponto de ebulição. Uma urgência, tensão explosiva apaziguada pelos vazios que deixa nas telas.
Podem ser difíceis de compreender, seus vazios. Uma perda de espaço, de material. Mas a perda é ganho de silêncio. A pausa que compõe a melodia. É o absoluto orquestrado. É um futuro muito incerto mas já cheio de saudade, como já dizia Martinho da Vila.

O historiador francês Georges Didi-Huberman esteve em São Paulo recentemente para abertura da mostra “Levantes”. Nessa ocasião realizou uma conferência sobre a genealogia das imagens das manifestações e de sua matriz antropológica.
Em sua apresentação falou sobre os braços ao ar, sobre os gesto da desobediência, indivíduos tomados em flagrante contra a regra social desafiando a ordem em vigor. Os jogos de força nas ruas e praças, efusão, apelo, recusa.
A obra de Speridião acontece nessa dicotomia, a rua e o ateliê, a manifestação e a introspeção, o gesto e a palavra. É sobre a guerra, o anarquismo, os corpos de liberdade. Mas é também sobre o amor, a amizade, sobre pintura e os versos tristes da existência mundana.
São pinturas escudo, formas antropológicas da vida social, pura expressão da tinta preta na tela sensível a qualquer respingo. São constelações de imagens que formam um enigma.
A produção de Speridião parece estar comprometida em deixar uma mensagem para um futuro longínquo, um futuro fictício cuja sociedade poderá, quem sabe, entender o que se passou nos remotos anos de 2000.

O Brasil vive um momento sensível e a arte se encontra ameaçada pelas intervenções de grupos conservadores, não é redundante mencionar Mario Pedrosa e sua célebre frase “ A arte é o exercício experimental da liberdade” publicada em artigo para o Correio da Manhã em 1968. Fiel à sua concepção de que é impossível separar arte, revoluçãoo e política, Pedrosa acreditava que tanto para o fazer artístico quanto para o processo revolucionário, a liberdade e a busca por novos caminhos são pré-condições fundamentais”.
“Quilômetros” celebra a liberdade de movimento, do encontro entre desejos expressivos. Em tempos de polarização de ideais, qualquer passo em direção a liberdade é uma guerra vencida.
Nas nossas inúmeras trocas de mensagem que viajavam na velocidade da luz entre a Sé e a Rua Jogo da Bola, no Morro da Conceição (RJ), discutimos toda sorte de assuntos, ora em tensão, ora experimentando a parte macia da vida, como ele costuma dizer. Sempre com afeto e com a sinistreza da vida.
Assim é Speridião, corpo e obra, ora um radical, ora aquele que cita Fernando Pessoa. Ora encarnado no grito de fora Temer, Bolsonaro, Crivella, ora tomado pelas canções de Nick Cave, George Harrison e Novos Baianos.
Seja qual for a sintonia, o volume está sempre no máximo.
Se aproxima a data da abertura de “Quilômetros”, todos os ofícios se embaralham e se sobrepõem, como as telas no seu ateliê.
Falta ainda o adesivo na parede.
Coloca adesivo não, eu escrevo na mão, no carvão e no coração. Já é?
Já é. E que assim seja.

São Paulo, novembro de 2017.
Maria Montero

Rua: Roberto Simonsen , 108

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Abertura

02.11.2017

Visitação

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